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segunda-feira, 16 de abril de 2012

RELIGIÃO - CRIANÇAS NO CANDOMBLÉ

Revista Manchete 24 de dezembro de 1977


Fotos Lázaro Torres

Para a maioria dos terreiros da Bahia, impedir a presença de menores nos rituais é extinguir o futuro da religião dos Orixás
As crianças que frequentam os terreiros de candomblé da Bahia talvez não possam mais participar dos rituais. A proibição é da Federação Baiana do Culto Afro-Brasileiro, entidade civil fundada em 1946, mas que só recentemente passou a funcionar, provocando grande agitação entre os crentes. Seu principal dirigente é um policial que atribui a decisão ao juiz titular de Menores da Capital baiana e tem – ele e seus companheiros de diretoria – carteira do Comissariado para exercer a fiscalização sobre os terreiros.
A decisão da federação agitou os meios do candomblé e o famoso terreiro de Axé Apô Afonjá , presidido pelo pintor Carybé , divulgou uma nota protestando contra “uma atitude inconstitucional e a tentativa de descaracterizar uma religião que, dia a dia, vem se afirmando no seio da coletividade”. E a ialorixá Stela de Azevedo explicou ; “Não há nada no ritual que possa ferir a sensibilidade de uma criança”.
 Na foto à esquerda Mirinha do Portão e a menina Cosma dos Santos , uma esperança.
As mães e pais-de-santo dos principais terreiros da Bahia não acreditam nas boas intenções anunciadas pela Federação do Culto Afro-Brasileiro. Por isso, os terreiros Axé Apô Afonjá, fundado pela famosa Mãe Senhora, o Axé Apô Aganju, dirigido pelo pai-de-santo Balbino, e o Axé Iamassé, de Mãe Menininha do Gantois , não permitem a entrada de qualquer membro da federação para retirar menores que frequentam seus barracões. E, para refutar a proibição, logo apareceram sociólogos, antropólogos, etnólogo e até o intelectual baiano por excelência, Jorge Amado, que declarou:”Os candomblés da Bahia, de qualquer nação , Gege,Nagô ,Congo,Angola ou Caboclo são independentes uns dos outros. Nunca estiveram reunidos em federações ou uniões. Por outro lado, sempre surgiram sabichões querendo explorar a crença do povo brasileiro nos Orixás. Acho absurda essa história de que os menores não podem frequentar os terreiros. E nem aceito a autoridade civil ou religiosa dessas federações sobre qualquer casa de candomblé da Bahia”.
Concordando com esse ponto de vista, o etnólogo Waldeloir Rego explica:  "É preciso entender que o candomblé é a religião de grande parcela da população brasileira e tem seu culto assegurado e resguardado pela Constituição”.
Waldeloir acha que a presença de menores nos cultos e cerimônias de quaisquer das inúmeras religiões espalhadas pelo mundo representa a própria continuação dessas religiões. E lembra da presença de crianças nas igrejas católicas, nos templos budistas, e mesmo nos rituais índios.
Na realidade as crianças nos candomblés são submetidas a três etapas religiosas diferentes: uma delas se liga ao nascimento; depois vêm as obrigações e a iniciação. Muitas grávidas, filiadas ao candomblé, recebem o Abiku Abi – entidade que, ao aparecer precisa ser despachada. Nesse caso, a gestante procura imediatamente o terreiro, onde são feitas as obrigações específicas. Muitas vezes, quando a grávida vai dar à luz a criança, as pessoas levam ao hospital o material necessário ao ritual que é realizado sem que o médico assistente note – ou se importe. O despacho, nesses casos, deve ser bem feito para evitar o risco de que Abiku Abi transforme a criança numa pessoa doente ou num marginal. Assim que deixa o hospital, a parturiente volta ao terreiro para continuar as obrigações. E o recém-nascido participa do ritual e continuará participando até sua iniciação. Esse processo é tão natural nos terreiros como é o costume de batizar as crianças, na igreja Católica.

Várias crianças dotadas de axé cumprem obrigação nos terreiros

O etnólogo Waldeloir Rego conta que já visitou várias vezes a África e observou muitas crianças consideradas de Abiku. Elas já tinham feito em tenra idade suas obrigações e traziam no tornozelo um xaorô , espécie de guizo, e um lagdbá, contas de vegetal pertencentes a Obaluaê. É comum, na Bahia, pais pertencentes a um terreiro de candomblé levarem o filho recém-nascido para uma consulta ao pai ou mãe-de-santo para saber qual e o seu santo e o seu odu ( destino).
Existem 16 odus, correspondentes ao horóscopo. Havendo indicação, são feitas obrigações para livrar a criança de algum mal que o futuro lhe reserve.
Depois de sete anos, o menino ou menina farão novas obrigações até a chamada fase de iniciação. O envolvimento infantil com o terreiro é tão marcante que os bebês nascidos nos arredores do candomblé são chamados Aiassé – e devem fazer inúmeras obrigações.
- A presença das crianças nos terreiros é da maior importância e retirá-las uma insensatez , conclui Waldeloir Rego.
Para os terreiros de candomblé menores e menos conhecidos enfrentar a Federação Baiana do Culto Afro-Brasileiro tem sido mais difícil. Assim, se inscrevem na Federação, pagam mensalidade e taxas e alimentam o receio diante das ameaças de fechamento.
Antônio Agnelo, Presidente da Federação e funcionário da Polícia, diz “as coisas melhoraram depois que começamos a atuar. Antes, havia até crianças que eram obrigadas a permanecer nos terreiros e falsos pais ou mães-de-santo exigiam dinheiro para soltá-las”.
Ele acha que muitas crianças curtem o candomblé por causa das comidas e da frequente distribuição de guloseimas especiais. E não aceita as opiniões de Carybé, presidente do terreiro Axé Apô Afonjá. “Ele é homem de folclore. Um estrangeiro, envolvido em candomblé”.

O juiz de Menores da Comarca de Salvador, Agnaldo Bahia Monteiro, afirma que, há muito tempo, o juizado fiscaliza discretamente os candomblés, em relação à presença de crianças em seu ritual: “Já recebemos denúncias de sacrifícios impostos aos menores, até com alguns ferimentos”.
Ultimamente, resolveu transferir essa fiscalização para a Federação do Culto Afro-Brasileiro: “Crianças não devem se submeter a quaisquer sacrifícios e menores de 18 anos não podem tocar em comidas e bebidas que contenham álcool”.
Os terreiros não aceitam ais interpretações, alegando que as crianças que os frequentam pertencem à comunidade, são muitas vezes filhas de pais e mães-de-santo. Seu afastamento significaria a própria extinção dos axés.
E insistem na presença das crianças em seus rituais, como é o caso da mãe-de-santo Mirinha do Portão, guardiã do terreiro de São Jorge , filha da Goméia – e que tem várias crianças em seu terreiro.

-Tenho aqui, entre outras, Cosma dos Santos, com
cinco anos. Ela nasceu aqui. Quando fui confirmar sua mãe, Waldete dos Santos, que é minha filha-de-santo, Waldete estava grávida; a menina nasceu com toda a força do axé.
- Elas nascem e crescem no axé e é portanto, indispensável sua presença no culto. Temos de continuar com as obrigações, até Cosma completar sete anos. Aí, virá a fase da iniciação
Com 53 anos, eu tenho 49 de terreiro; isso quer dizer que menina, já frequentava o candomblé.
. Mãe Mirinha do Portão revela ainda que tem em seu terreiro Eunice Araújo Gomes, 12 anos, que é de Oxumaré, Rosângela Maria dos Santos, de Iemanjá, e muitas outras meninas e meninos.
Ela acha que a presença das crianças garante a continuação da fé. E diz: “Em minha casa, só mandam os meus Orixás”.
Na foto ao lado Eunice ( de Oxumaré), 12 anos e Rosângela ( de Iemanjá), da mesma idade, ladeiam Cosma dos Santos, cinco anos. As três são do terreiro de Mirinha do Portão.





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