Objetivo


segunda-feira, 30 de agosto de 2010

ARTES VISUAIS - CARLOS BASTOS, UM CAPÍTULO NA HISTÓRIA DA PINTURA BAIANA

ARTES VISUAIS
 Jornal A Tarde 7 de junho de 
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Texto de Reynivaldo Brito



Os 50 anos de idade do artista Carlos Bastos serão comemorados com uma grande exposição retrospectiva que será uma verdadeira aula sobre o movimento artístico na Bahia, no próximo dia 2 de julho, no foyer do Teatro Castro Alves, sob o patrocínio da Fundação Cultural do Estado da Bahia. Para isto o pintor está realizando um levantamento completo de toda sua obra, colhendo quadros em mãos de colecionadores, mandando fotografar documentos e selecionando fotografias de seus quadros, desenhos e murais. Esta exposição proporcionará aos baianos uma visão completa da arte na Bahia desde 1944, quando ele realizou juntamente com Genaro de Carvalho uma exposição chamada de “1º Salão de Arte Americana”, dedicada a artistas baianos, no ICBEU, em Salvador.
Porém, a exposição que marcou o trabalho de vanguarda de Carlos Bastos foi em 1943 quando ele retorna dos Estados Unidos e resolve fazer uma mostra individual, na Biblioteca Pública, que funcionava na Praça Municipal. O caráter revolucionário da arte de Carlos Bastos foi combatido pelo jornal “A Semana Católica”, através de um violento artigo. Seus quadros foram cortados com lâminas de barbear e furados. A imprensa baiana saiu em defesa do artista que trazia dos Estados Unidos as idéias da arte moderna. Assim Carlos Bastos pôde continuar o seu trabalho, hoje, reconhecido em todo o País.

                                                            O HOMEM

O pintor Carlos Bastos nasceu em Salvador no bairro do Rio Vermelho, em 12 de outubro de 1925. Começou a pintar aos 18 anos quando estudava no Colégio Jesus Maria José e depois nos Maristas. A seguir cursou a Escola de Belas Artes em Salvador, mudando-se para o Rio de Janeiro onde veio a concluir o referido curso.
Em 1944 participa com Genaro de Carvalho do 1 Salão de Arte Americana, dedicada aos artistas baianos , no ICBEU em Salvador. Em 1946 já morando no Rio de Janeiro, expõe com Elsaburgo Nagasawa , na Associação Brasileira de Imprensa. Em 1947 volta a Salvador, onde realiza sua primeira exposição individual, no dia 1 de março, na Biblioteca Pública. Era a primeira exposição de Arte Moderna realizada em Salvador.
Em setembro do mesmo ano, realiza uma exposição com Mário Cravo Júnior na Associação Cultural Brasil-Estados Unidos e a seguir viajam juntos para a terra do Tio Sam. Carlos Bastos vai estudar na Art Student League, em Nova Iorque, tendo como professor Nicolay Abracheff, e toma aulas particulares com Harry Stenberg. Em 1948 realiza uma exposição indivudal na Norlyst Gallery.
Após dois anos em Nova Iorque , volta a Salvador e em 1949 realiza uma outra exposição na Biblioteca Pública. Estava familiarizado com os amplos salões daquela casa onde tinha realizado sua primeira exposição individual e abrigara tantos jovens e talentosos artistas.Suas idéias modernistas tinham sido reforçadas com sua viagem aos Estados Unidos e assim o artista esperava mostrar toda a força criadora de sua obra. Era aquela a exposição que realmente aguardava com tanto carinho, como uma jovem que espera completar 15 anos, embora já tivesse festejado outros aniversários. Mas aconteceu o inesperado. Os falsos valores alimentados e arraigados em algumas pessoas levaram-nas à agressão. Assim as figuras despidas e em movimento entrelaçando-se foram consideradas profanas. O jornal “A Semana Católica” publicou no dia 13 de fevereiro um violento artigo. Logo depois alguns desconhecidos penetraram sorrateiramente nos amplos salões da Biblioteca Pública e com lâminas de barbear e outros objetos perfurantes mutilaram os trabalhos do jovem pintor. Alguns desses trabalhos ficaram totalmente inutilizados, e outros ele os guardou e serão mostrados nesta retrospectiva!.
Foi um triste golpe para o jovem artista que começava, e, que alimentava grandes esperanças na arte que fazia. Acontece, porém, que toda a imprensa baiana saiu em defesa de Carlos Bastos, porque não se podia conceber que alguém não tivesse o direito de expressar o que sentia. Isto reanimou o artista, que resolveu prosseguir sua longa e profícua viagem pelos caminhos da Arte. Neste mesmo ano, inicia as ilustrações para Cadernos da Bahia, vai pintar a convite do grande educador Anísio Teixeira, um mural na Escola do Centro Educacional Carneiro Ribeiro, na Lapinha.
Em 1949, começa a pintar os murais da boite Anjo Azul. Foram feitos quatro murais, e hoje resta apenas um deles. Os demais foram sendo apagados impiedosamente pelos sucessivos donos do Anjo Azul. Cada um queria fazer sua própria decoração e num desrespeito e falta de conhecimento da importância de um mural de autoria de Carlos Bastos terminaram por apagá-los. O Anjo Azul transformou-se naquela época em ponto de encontro da intelectualidade baiana. Artistas,escritores, jornalistas e jovens universitários para lá se dirigiam a fim de discutir os mais variados assuntos. O artista Carlos Bastos via assim seus murais sendo olhados e seu valor reconhecido. Isto lhe proporcionou uma viagem à França. Antes de viajar, pintou três quadros e se inscreveu no Primeiro Salão Bahiano de Belas Artes, recebendo a Medalha de Bronze. Viajando para a França estudou a técnica de murais na École de Beaux Arts, o desenho na La Grand Chumiére, permanecendo em Paris durante quatro anos.
Voltando ao Brasil fixou residência no Rio de Janeiro, realizando exposições, fazendo vitrines, cenários e costumes para o teatro e ballet.
Em 19, recebe da Câmara Brasileira do livro, o prêmio “O Jabuti de Ouro”, conferido a melhor ilustração, do livro de Darwin Brandão e Mota e Silva intitulado “Cidade do Salvador. Caminhos de Encantamento”. No ano de 1958 resolveu comprar uma casa longe do barulho e ausente de vizinhos. Desde criança uma casa lhe chamava a atenção, por estar instalada num local pouco habitado e de pouco tráfego. Era a casa de seus sonhos de menino e que agora poderia ser adquirida. É o famoso Solar da Jaqueira, onde Carlos Bastos construiu seu mundo. Decorou o Solar a seu gosto, plantou árvores e passou a viver sua merecida tranquilidade com suas plantas e cachorros. Um dia, notou que os operários haviam chegado e instalaram um tabique , no alto da encosta, bem em frente a seu mundo. Irritou-se, mas resolveu aguardar o resultado. Para sua tristeza um imenso espigão de concreto armado surgiu na encosta, antes ocupada por uma espessa e verdejante relva. Teve ainda alguns anos de alegria, porque o espigão havia sido construído sem obedecer as exigências do Código de Obras e ficou embargado. Depois de algum tempo surgiram os primeiros moradores e também as primeiras pedras, latas e outros objetos imprestáveis que eram lançados do alto do espigão por pessoas inconvenientes. Seu mundo foi invadido, descartado e outra vez o artista sofria na própria pele as agressões de um público despreparado que não respeita a intimidade e os sentimentos alheios. Desgostoso, anunciou que ia embora da Bahia e vendeu a casa.
Antes de vende-la, Carlos Bastos tinha gastos precisamente dois anos decorando o Solar da Jaqueira. Já em 1961 pinta o mural do Banco Bahiano da Produção, atual Banco Francês e Italiano. Em 1962, contrai uma enfermidade ficando semi-paralisado, andando em cadeira de rodas por longo período.
O primeiro mural que Carlos Bastos pintou na boite Anjo Azul surgiu de uma brincadeira com seu amigo José Pedreira, que tinha-lhe dito que ia abrir um boteco para vender cigarros. “Prometi que ia pintar alguma coisa e assim fiz o meu primeiro mural em Salvador”. Daí gostei e fiz mais três somente no Anjo Azul, O nome do boteco, que terminou virando boite, surgiu de uma alegoria que tinha pintado no mural. Como em quase todas as grandes capitais existem casas noturnas com o nome de Anjo Azul, resolvemos batizá-lo com este nome. Considero muito importante este lugar, porque está intimamente ligado com o movimento artístico baiano. E o interesse é que o Anjo Azul tem mudado constantemente de dono e continua funcionando. É certamente um dos mais antigos da cidade em funcionamento”.
Quanto aos murais apagados, Carlos Bastos procura justificar afirmando que realmente o mural está sujeito a isto. “Isto acontece com muitos muralistas. Sinto , é claro que um trabalho que fiz com tanto carinho seja apagado impiedosamente e muitas pessoas deixaram de conhece-los. Mas que poderei fazer? Só se reunisse alguns artistas e fizesse um protesto público. A gente tem que aguentar essas coisas”, conclui melancolicamente.

                                                        O RETRATO

Quanto ao retrato, Carlos Bastos diz que procura, acima de tudo, pintar quando faz um retrato. Não concorda com alguns que dizem que o retrato é uma arte menor. Os grandes pintores fizeram retratos e todas as pessoas importantes homens e mulheres posavam e posam para serem retratados para a posteridade. Com o surgimento da máquina fotográfica, a fotografia substituiu a tela. Mas certamente muitos ainda gostam de ser retratados. Isto é inerente ao homem que não gosta de desaparecer sem deixar uma marca, sem registrar a sua passagem. “Faço retratos mas, procurando pintar. As roupas são indefinidas. Elas poderiam ter sido usadas em qualquer época”, diz o pintor.

                                                  MURAIS, UMA PREFERÊNCIA


O artista Carlos Bastos tem vários murais e painéis pintados. Vejamos: Em Salvador – no Anjo Azul, antigo Banco Baiano da Produção, Associação Atlética da Bahia (apagado), Hotel Themis, Edifício Martins Catharino, Hotel Xangô, Yatch Club da Bahia, Hospital Santa Luzia, Departamento Nacional de Obras Contra as Secas, Restaurante Árabe,Centro Educacional Carneiro Ribeiro, Assembléia Legislativa, tetos do Solar da jaqueira, teto da residência do sr. Dilton Portela Lima.
No Rio de Janeiro: teto da capela da residência do sr. Nelson Parente, murais da Capela do Parque da Cidade, Restaurante Cervantes. Em Paris – mural no Hotel Royer Collard.

Os painéis estão na residência do sr. Paulo Affonso de Carvalho Machado e nas fazendas e residência do sr. Clodoaldo Bastos. Como pudemos observar, o pintor Carlos Bastos gosta de pintar murais e painéis, e justifica dizendo “tenho uma tendência a pintar coisas grandes porque sinto maior liberdade. Me sinto bem trabalhando num grande espaço, onde minhas figuras são concebidas quase em tamanho natural. O meu temperamento é de muralista e mesmo quando faço um quadro a óleo, minhas figuras têm pelo menos o rosto grande. É um problema de necessidade quase biológica que talvez mereça uma explicação maior. Considero todos os murais que fiz muito importantes para mim, porque eles representam um pedaço do meu eu, cada figura que faço é como que um pedaço do meu próprio corpo. Gosto do mural porque ele tem também uma importância como documento. Daí a minha preocupação em retratar pessoas vivas, que daqui a anos não mais estarão aqui. É uma época que está sendo retratada e elas ficarão assim por mais tempo. Até as roupas que elas vestem são indefinidas com relação à época , para que assim sejam sempre presença’.
Além de murais , painéis e retratos , Carlos Bastos fez ilustrações para livros de escritores famosos, como Pedro Calmon, Van Jafa, Jair Gramacho e para Cadernos Brasileiros. Revista Ângulo, Revista Rio Magazine, Revista dos Bancos, capa do livro do Professor Luiz Henrique Dias Tavares “História da Bahia”, dentre outros. Também fez cenários e costumes para o Teatro Municipal, Teatro da República, Teatro dos Novos e tem obras nos museus de Arte Moderna do Rio de Janeiro, Museu Ermitage, Lenigrado, na URSS, Museu de Belas Artes, do Rio de Janeiro, Museu de Arte Sacra da Bahia, Museu Regional de Feira de Santana, dentre outros.
Vários pintores e intelectuais têm falado e escrito sobre o seu trabalho, como o poeta Augusto Frederico Schmidt que disse “Trata-se , realmente, de alguém – uma personalidade alta, um desmedido artista que surge para revelar uma original e forte mensagem”. Já o escritor Jorge Amado escreveu: “Carlos Bastos recriou a Bahia – seu casario, sua atmosfera mágica, seu espírito, sua poesia – num desenho magnífico, numa pintura plena de graça e de ternura. Recriou também o céu, seus anjos e santos e ainda ai era um céu baiano, barroco e eivado de mistério”.

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

POESIA - SOMBRAS

POESIA
Reynivaldo Brito

Vejo sombras do mal ao meu redor
Também no horizonte crepuscular
Não, não estou ficando louco!
Apenas, observo o cotidiano nas páginas sangrentas
dos jornais diários e na tela da tv
Vejo, sendo transeunte, corpos inertes
Abandonados nos locais vazios da minha cidade
Não sou policial e nem autoridade
Mas, tenho sentimento de cidadão
Desses, que se revoltam com o tombar de uma árvore
Com a morte prematura de um jovem da periferia
Com a estupidez do terrorista,
Com mais uma guerra sem sentido
Antevejo as fronteiras do humano
As sombras, sua efemeridade
A eternidade do desumano.
Não sou profissional da vertigem
Porém,indago: por que somos tão estúpidos?
Por que somos tão insensíveis?
6.01.2009

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

MÚSICA - COM TANTO SOM ELÉTRICO , PREFIRO A SIMPLICIDADE DO VIOLÃO

                                                                        DORIVAL CAYMMI
Jornal A Tarde em 2 de outubro de 1976
Texto de Reynivaldo Brito

“Os compositores brasileiros não podem viver exclusivamente do direito autoral e a propalada invasão da música estrangeira é uma conversa antiga. O mercado está ai tanto para a música estrangeira como para a música nacional. O que é preciso é que nós, compositores, façamos músicas boas, que terão condições de competir no mercado”. Esta é a opinião do compositor e cantor Dorival Caymmi. Ele adianta que antes dos combates às músicas estrangeiras é preciso pensar que as gravadoras existentes no Brasil são também estrangeiras.
Quanto às mudanças verificadas na MPB nos últimos anos, Caymmi acha que não foram tão significativas. “O que realmente sofreu alterações foi o carnaval, que há 30 anos era feito com música popular brasileira. Era uma festa de rua, uma festa ampla. A música brasileira era cantada por todos. Mas devido à massificação dos meios de comunicação , elementos alheios e estranhos entraram em jogo e o carnaval perdeu a sua pureza, afirma Caymmi, com seu jeito preguiçoso e fala mansa.

                                                   A VITROLA DO PAPAI

O compositor disse que o “rádio brasileiro sempre tocou música estrangeira. Há algumas décadas as operetas e outras peças, geralmente estrangeiras, dominavam os programas. Depois vieram outros gêneros como o “rock and roll “que tem no Elvis Presley seu maior expoente. Admiro este rapaz que conseguiu o sucesso universal, o sucesso total. Agora é a vez de outros gêneros e a música virou som. Hoje as pessoas, principalmente os jovens, não convidam outros para ouvir uma música e sim para ouvir um som. Ora, o som é resultante dos instrumentos elétricos e das vitrolas que podem ser compradas por qualquer adolescente. Lembro-me que a vitrola há algumas décadas era do papai, do dono da casa. Hoje sabemos que qualquer jovem tem sua vitrola e na maioria das casas existe mais de uma, a depender do número de filhos. A vitrola deixou de ser do papai e passou também a ser do filho. Evidente que o gosto do papai não pode ser o mesmo do filho. A própria inquietude e rebeldia do jovem levam-no a procurar novos sons e tomar suas próprias atitudes não somente em relação à música. Ele tanto consome a música estrangeira como a brasileira.

                                                         POVO, O ÚNICO JUIZ

Caymmi afirma que o mercado brasileiro para música está em grande expansão: “Lembro que quando comecei a trabalhar, a população do país chegava a 40 milhões de habitantes. Portanto, são 110 milhões de consumidores que podem ser estimulados para consumir MPB. Devemos ressaltar ainda que o poder aquisitivo de certa forma aumentou. Qualquer estudante pode adquirir um compacto, bastando que economize alguns cruzeiros. Além disso, os disco podem ser encontrados com mais facilidade nos supermercados, bancas de revistas e até livrarias, sem falar nas casas especializadas. O mercado é variado e tem lugar para todo mundo. Eu não posso condenar uma música que, para ser executada precisa de muitos instrumentos eletrônicos, nem a música feita por Waldick Soriano ou Teixeirinha. Existem gostos para todas elas e uma prova disto é o sucesso que eles alcançaram com suas composições e canções. Se você me perguntar se gosto deste tipo de música, evidentemente que não, responderei. Acho que gosto não se impõe. O que é preciso no Brasil é a conscientização no sentido de educar o povo musicalmente”.
-Confesso que não sou um bom ouvinte de rádio e nem tampouco me preocupo com a divulgação do meu trabalho. Tudo isto deixo a cargo da gravadora que produz meus discos. O meu compromisso é com o povo e é dentro deste pensamento que sempre procuro realizar um trabalho que venha atender ao gosto popular. O povo é o único juiz que levo em conta. Acredito que existem muitas transas e atitudes várias para criação de ídolos e lutas de bastidores. Porém tudo isto não me interessa, vivo alheio a estas coisas, porque sou de opinião que o que prevalece é o que é bom. Lembremos que muitas músicas do passado são cantadas , gravadas e regravadas porque agradaram ao povo e até hoje são consumidas por jovens e velhos.O que na realidade me interessa é criar. Se alguém me convidar para ser sócio de uma boite, eu não aceito. Não aceitaria porque eu seria a atração. Iria cantar para atrair gente enquanto o sócio iria tomar conta do caixa. Ora, isto ia me deixar preocupado porque não saberia até que ponto estava a honestidade do cara funcionando. Por isto, continuo e continuarei compondo e cantando onde me comvém”.



                                           LUTA PELO DIREITO AUTORAL

Caymmi acha que o compositor não pode ficar preocupado em fiscalizar se está recebendo os direitos autorais: “Ou o cara fica preocupado em realizar o seu trabalho ou fiscaliza o direito autoral. Prefiro compor despreocupadamente. Se me perguntam se sou prejudicado no pagamento do direito autoral, responderei que todos somos prejudicados. Eu, por exemplo, sou suspeito, porque fui um dos fundadores da Associação Brasileira de Compositores e Autores – ABCA. Isto faz muito tempo e este movimento de conversar com o Presidente da República, Ministros de Estado, senadores e deputados já fiz e participei ativamente. Hoje deixo este trabalho para outros mais jovens do que eu. Lembro que depois da criação desta sociedade fundamos a União Brasileira dos Compositores – UBC.
“Naturalmente com a expansão do mercado, com o surgimento de outros compositores e cantores surgiram outros interesses e novas sociedades arrecadadoras do direito autoral apareceram. Porém, com a unificação e criação de uma tabela única para cobrança, o compositor e o autor foram beneficiados. Não sei como essas sociedades são vistas pelo Serviço de Defesa do Direito Autoral – SDDA. Tenho conhecimento que, neste momento, está acontecendo uma transformação no setor, mas não tenho maiores informações. Acho que já fiz o necessário pelo direito autoral quando comecei em 1938 e hoje deixo esta tarefa para outros”.
Para Caymmi o compositor brasileiro não pode viver exclusivamente do direito autoral. Ele, por exemplo, que tem vários discos gravados, é um nome nacional, precisa estar se apresentando em programas de televisão e realizando shows em teatros para sobreviver. “Todos meus colegas compositores têm que trabalhar . Não conheço compositor que fique num sítio ou numa fazenda criando e vivendo do direito autoral. Basta lembrar que Erasmo Carlos, Chico Buarque de Holanda e Milton Nascimento sempre estão realizando espetáculos e participando de shows para ganhar dinheiro. Se eles assim trabalham é porque necessitam garantir o futuro de suas famílias. Se o dinheiro arrecadado e recebido do direito autoral fosse suficiente, certamente eles trabalhariam menos, como o mesmo acontece comigo. Eu sou compositor e cantor, porque gosto e necessito realizar esta dualidade”.

                                                           SIMPLICIDADE DO VIOLÃO

Uma coisa curioso que lembra Caymmi é que o jovem até a faixa dos 30 anos gosta da música estrangeira e a maioria não entende a letra que é de idioma estranho. Gostam das músicas porque elas são agradáveis, porque são de boa qualidade e bem trabalhadas. “Lembro as trilhas sonoras das novelas ( também internacionais) que agora estão sendo transformadas em disco e recebidas com muita aceitação pelo público, especialmente pelo público jovem. Com isto, quero salientar que essas músicas fazem sucesso porque agradam. Devem ter qualidade para tanto. Já com relação à música popular brasileira eu não tenho condições de dizer se ela é cantada como devia pelo povo, sei que gosta de um samba enredo, como de uma música de Benito de Paula e de uma música barulhenta estrangeira. Tudo isto está ligado a processos industriais e de educação. O Brasil é um país imenso e para você conseguir um certo nível e conhecimento musical será preciso um trabalho de conscientização e educação muito grande, que demanda tempo. O que não concordo é com a imposição de gosto por este ou aquele tipo de música. O nosso papel como criadores é de fazer músicas boas e utilizar da técnica que nos permite trabalhar a música e oferecer um produto de qualidade para ser consumido pelo público”.
Ele concorda que “a maioria das músicas importadas é de boa qualidade e bem trabalhada. Hoje a tônica é o elemento elétrico capaz de reproduzir as notas musicais em altas escalas. Somos hoje um pouco escravos desse processo elétrico. Eu, pessoalmente, não condeno mas, é preciso um certo cuidado porque o que o povo gosta mesmo é da música simples, que fala por si. Hoje é muito comum as pessoas discutirem se aquela faixa do disco tal foi gravada em dez ou mais canais e a potência das caixas de som de sua vitrola. Outros ficam presos a toneladas de equipamentos eletrônicos que dificultam até a sua mobilidade. Todo isto pode ter um certo valor, mas prefiro a simplicidade e grandiosidade do violão”.

                                           COMPARADO A TEIXEIRINHA

- Temos excelentes poetas populares como Gilberto Gil, Caetano Veloso, Milton Nascimento, Vergueiro e outros que me fogem à memória neste momento. São pessoas com grande capacidade de criação. Realizam um excelente trabalho com consciência e alcançam o povo, o que é importante. Outros fazem ou realizam seu trabalho em outra linha., outros gêneros e também são bem sucedidos. Não tenho condições de fazer críticas ao trabalho de Teixeirinha ou Oldair José. Isto é muito perigoso. Lembro agora que um certo jurado disse-me que eu “estava tirando uma de Teixeirinha”, com a música É Doce Morrer no Mar. Ora, o autor dos versos é Jorge Amado. Os versos estão no livro Mar Morto, de Jorge, e foram musicados por mim. Simplesmente o cara desconhecia tudo e jogou esta do Teixeirinha. É claro que concordo que ele não goste da música. O mesmo ocorre comigo, que não gosto de músicas de certos compositores. No entanto, não declaro em público. O gosto é meu. Individual. Gosto de ouvir “Carolina”, do Chico Buarque de Holanda; “Alegria, Alegria”, de Caetano Veloso; “Domingo no Parque”, de Gilberto Gil, e também composições deste novato , o Luis Melodia”.
Quanto ao autor de “Pavão Misterioso”, Caymmi não quis falar porque “ainda não consegui ouvir a música totalmente. Quando tenho oportunidade de ouvi-la é aos pedaços. Na hora da novela, a técnica achou por bem de apresentá-la aos pedaços e quando estou em casa que começa a tocar esta música, todo mundo passa a cantar e ninguém entende nada. Isto dá uma frustração danada à gente. Tanto os cortes técnicos para a entrada dos comerciais, quanto a barulheira das pessoas que desafiam e fazem barulho. O certo é ouvir, é cantar o que gosta. A música boa se impõe por si. A ruim cai em pouco tempo no esquecimento”.

                                                     RECADO AOS NOVOS

Dorival Caymmi não concorda que esteja ocorrendo uma crise ou um vazio na música popular brasileira. Para ele, temos bons compositores e autores produzindo. O que “está faltando são os festivais para revelar novos valores, a exemplo de Gil, Caetano, Milton e muitos outros. Acho que os festivais, com todas as críticas que fazemos, têm uma finalidade e importância. Nunca estive preocupado com as rotulações de tropicália, tropicalismo e muitas outras. Mas sempre surgem valores e isto é muito positivo. É preciso uma ativação para a gente nova aparecer. Quanto a estes novatos, recomendo a necessidade de trabalhar sua música dentro de um esquema que não falhe, que agrade o povo, que é o supremo juiz. Os jurados ficam de lado”.
Falando sobre seu último disco feito juntamente com Gal Costa, ele afirmou que não tem informações sobre a vendagem porque o pagamento do direito autoral é feito por trimestre e aí estão incluídas outras músicas de outros LPs gravados anteriormente. “Sei que o disco de 78 rotações “Maracangalha” foi talvez o que mais rendeu direito autoral para mim. Na realidade, não estou muito preocupado com as contas. Quero é produzir mais, compor músicas do agrado do público. Isto me satisfaz ".

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

COMPORTAMENTO - MENTIR É BOM !

COMPORTAMENTO
Texto de Reynivaldo Brito

Estamos acostumados a ouvir políticos mentirem em suas entrevistas e declarações públicas. Mentem por ofício. Basta lembrar o último debate entre os candidatos a presidente. Uma senhora que muda de imagem com frequência inflou a inflação e o aumento do salário mínimo; outra só falava da grandiosidade de suas ações em favor do meio ambiente e, um senhor, de suas ações em defesa do povo. A mentira grassou. Fiquei aborrecido com este quadro, já que um deles vai dirigir o nosso país por quatro longos anos.
Mas, hoje pela manhã ao ler uma reportagem de página inteira na edição da Folha de São Paulo do dia 8 passado na secção de Ciência deparei-me com o título “O homem precisa se enganar”, diz o famoso e polêmico biólogo americano Robert Trivers, 67 anos, da Universidade de Harvard, uma das mais conceituadas do mundo.
Este cidadão defende que nós pobres humanos evoluímos para acreditar em mentiras as quais nos fazem sentir melhor e justificam nossas atitudes. Portanto, o Pinóquio deve ser levado a alta categoria de nossos heróis, porque ele mentia e o seu grande nariz é o maior troféu de todos nesta Terra que se esvai.
É, a teoria do autoengano, logo, mentir é “uma estratégia útil de sobrevivência. Como o melhor mentiroso é o que acredita na mentira, o autoengano evoluiu conosco. Acreditar em si mesmo, por exemplo, torna mais fácil convencer os outros a apoiar os seus projetos, mesmo que ruins “.
Com esta grande descoberta ele também entende que muitos animais se camuflam para enganar seus inimigos e predadores.Portanto, garantem sua sobrevivência enganando, mentindo. Assim, nós humanos precisamos investir nas mentiras.
Foi assim que passei a entender melhor um conhecido que mente por mania. Ele gosta de dizer que fez isto e aquilo, comprou um carro importado de última geração, uma cobertura de 500 m2, e sempre está viajando pelos quatro cantos do mundo. É realmente um milionário imaginativo e, assim vai se autoenganando e acredita piamente no que diz.
Não tem um real furado no bolso. Porém, passo de hoje em diante a admira-lo porque, de acordo com esta teoria do americano ele é um sujeito especial , um expert em mentira. Da rejeição que tinha por suas mentiras, tenho agora que olhar de outra forma. Aplaudi-lo. Talvez esteja ai a sua felicidade, porque o cara só anda rindo e todo compenetrado. O ignorante era eu , que ficava plantado querendo rebater suas mentiras .
Portanto, meus amigos, o Congresso é uma casa sagrada. A Casa da Mentira, dos mentirosos escolhidos por nós pobres mortais. Assim elegemos Tiririca, Maluf, Valdemar da Costa Neto, Antonio Palloci, Genuino,Collor de Mello e muitos outros nobres representantes que agora estão no reino dos Russeff.
Acredito ttambém que Robert Trivers em seus estudos sobre a psicologia evolutiva diz uma meia verdade. Segundo ele “as mulheres investem mais nos filhos do que homens. Quando grávidas, os bebês sugam seus recursos, e isso continua no aleitamento. Cada filho, também, as impede de ter outros por um tempo. Por isso, as estratégias de acasalamento são diferentes: elas são mais criteriosas, menos promíscuas”. Os homens podem até ser mais promíscuos, porém, o que se vê no noticiário é também um grande número de promiscuidade feminina. Enquanto os homens fogem em grande número de sua paternidade. Como ele diz que é bom mentir, tudo fica explicado.

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

MÚSICA - A HISTÓRIA DE QUATRO BAIANOS CRIATIVOS

Jornal A tarde – sábado 24 de fevereiro de 1979.
Texto de Reynivaldo Brito

Imprevisíveis e criativos, quatro baianos iniciaram há dez anos , em Salvador, um movimento musical que tinha como objetivo reunir alguns jovens de talento para formar um grupo. Começaram a procurar os instrumentistas, que aos poucos foram chegando e formando o que hoje conhecemos por Novos Baianos. Inicialmente Morais Moreira, Paulinho Boca de Cantor, Baby Consuelo e poeta Galvão. Estávamos no ano de 1968 e dois anos depois já lançavam o seu primeiro Lp pela RGE . Vieram vários percalços e muitos não acreditavam que o grupo durasse muito, especialmente pela maneira descontraída que eles viviam e deixavam transparecer ao público uma certa
irresponsabilidade . Na foto Baby apagando a vela no aniversário de integrante do grupo.
Mas, nada disto acontecia. O que o grupo procurava era não deixar a peteca cair, e assim ela já está segura há 10 anos. Hoje já podem se orgulhar de terem produzido oito Lps e quatro compactos, sendo que alguns já estão esgotados, a exemplo de Acabou Chorare, que é uma raridade musical para os colecionadores. Esta música Acabou Chorare , vale a pena lembrar a sua origem. João Gilberto estava visitando os Novos Baianos acompanhado de sua filhinha Bebel Gilberto, hoje, uma cantora de prestígio em vários países, quando ela levou um tombo e ficou chorando. Todos ficaram preocupados consolando-a quando ela falou. “Pai, acabou chorare”. Nesta época João Gilberto estava morando no México e Bebel, que estava aprendendo a falar, misturou o Português com o Espanhol.
A inquietação dos Novos Baianos pode também ser verificada na mudança constante de gravadora. Agora assinam contrato com a CBS e nada menos que três Lps são lançados: “Farol da Barra”, do Grupo , “Geração Som”, de Pepeu e o de Baby Consuelo, além de um compacto com músicas para o carnaval baiano de 1979 e shows que realizaram em várias cidades.
Esta produção rica em quantidade e qualidade é necessária ser citada para demonstrar que os Novos Baianos é um grupo musical que tem certa linha de conduta profissional que lhes garante a sobrevivência.Vencendo inúmeros problemas que vão surgindo. Na verdade são poucos os que continuam unidos após uma longa vida conjunta. No entanto, foi justamente de um desafio jogado no ar – fábrica aberta de novos baianos, onde qualquer cara bom seria aceito – que deu origem a um dos grupos de maior força dentro da música popular brasileira, surgido no período pós-tropicalista, em Salvador, Bahia : Novos Baianos.

                                                        O INÍCIO

Conta o poeta Galvão, que é compositor e mentor do grupo que a estréia dos Novos Baianos aconteceu com o show “Desembarque dos Bichos depois do Dilúvio Universal”no Teatro Vila Velha, em Salvador, apoiados pelo grupo Leif’s. Para gravação do primeiro disco , Pepeu, Jorginho, Dadi e Gato Félix se uniram ao grupo passando a integrá-lo permanentemente. Anos mais tarde, começaram a acontecer as primeiras modificações: em 1974 , um novo elemento integra o grupo que é o Charles; em 1975 sai Morais Moreira e no ano seguinte aparece Dadi, e os ingressos posteriores de Baixinho, Bola e Didi vieram novamente fortalece-lo. Daí em diante a família ficou unida e permanece unidade enquanto faz música.
O disco que acabam de lançar “Farol da Barra”, além de ser título do LP, é também a faixa que abre o disco, mostrando a belíssima composição de Galvão e Caetano Veloso na voz de baby Consuelo.
Explica Galvão que o LP “Farol da Barra”surge exatamente no momento da desraização da música popular brasileira . No momento em que muitos de nossos teatros são transformados em discotecas, este trabalho é uma conscientização da música, de cantar, saber e fazer arte”.
Paralelamente ao lançamento do elepê eles estão fazendo um filme com seis estorinhas com roteiro e direção de Galvão. As estorinhas estão ligadas a fatos ocorridos com os integrantes dos Novos Baianos e todos aparecem em cada uma delas. Vejamos:
A primeira “Charlie Negrito e os Homens”, pantomima, onde se confundem o cinema e o teatro que também servirá para abertura dos shows dos Novos Baianos. Vem a seguir Älma de Palhaço com Bola do Caixão e a Multidão”, terror brasileiro. Depois “ Gato ,Oi Cat”, paranóia brasileira com o Gato Félix.; “Gasolina Versus Rolimã”, com Didi, Baixinho e Jorginho a sessenta quilômetros por hora na serra de Guaratiba; “Aventuras e Sonhos de Paulito Monroe Macarrão 18”, com Paulinho Boca de Cantor; “Serpentina Não é Cobra,Adão”, com Pepeu e Baby, sobre o Gênesis. A mais engraçada de todas, segundo os Novos Baianos será a estória “O esquerdinha, o direitinha, o alienado e o sem lógica”, que será estrelada por Macalé, Evandro, Zé Paulo e o Galvão, respectivamente nos referidos papéis. Eles representam quatro mendigos que moram na porta de um cinema. Diz Galvão que “eles são, a realidade e a fantasia. Uma mistura do real com o ficcional. Para nós não existe limite entre o real e o sonho. Eles se confundem nas boas músicas, nossas ações e em tudo aquilo que fazemos.”

                                            BRASILEIRO É IGUAL

Falando ainda das dificuldades que encontraram e ainda encontram porque muitos não compreendem toda a extensão do viver e fazer dos Novos Baianos, Galvão diz que “o brasileiro é um jogador e tem muito de Novos Baianos. Aquele cara que um dia está rico e no outro está pobre. A boemia mudou, mas a música continua boêmia. A música troca o dia pela noite e nós trocamos também a noite pelo dia”.
Mas falando sobre a vida em comum de várias pessoas que compõem os Novos Baianos informa Paulinho Boca de Cantor, que a coisa surgiu também de uma necessidade. Isto porque quando íamos ensaiar um show era difícil reunir o pessoal. O percussionista morava em Amaralina, o do instrumento de sopro em Itapagipe,etc. Era difícil reuni-los. Daí passamos a morar juntos e o resultado é que formamos uma comunidade onde vivem várias pessoas inclusive nove crianças , sendo que Baby tem quatro e eu três. Somos os que mais produzimos. Aqui não existe esta conversa de famílias fechadas,constituídas. Existe, é claro, o respeito. Mas meus filhos gostam de mim como de qualquer membro do grupo, embora não sejam nem seus parentes. Os garotos recebem muito afeto de todos, porque somos um grupo unido pelo amor. A presença de muitos garotos fazem deles ( todos) felizes porque têm sempre com quem brincar. Porém todos nós damos orientação a eles que acatam as reclamações. São treinados para aceitar o que pode ou não ser feito, mas evidente com muito mais liberdade que as crianças que vivem encurraladas, nos apartamentos habitados pela classe média brasileira.

                                                               O FILME

Mas os Novos Baianos estão curtindo mesmo é o filme “Cinema Olímpia”que segundo Galvão tem e não tem a ver com Caetano Veloso. Considero o Caetano um Castro Alves mais bonito porque responde a este momento presente que vivemos. É verdade que Castro Alves é importante e foi presença no momento que viveu. Mas Caetano mudou a cultura brasileira no que existe de mais popular que é a música. Daí, Cinema Olímpia , que foi uma música sua, seja cada vez mais lembrada porque assim estamos prestigiando um e talvez o mais importante compositor de todos os tempos”.
Galvão , com seus 41 anos de idade, ex-engenheiro agrônomo, ex-suplente de vereador com 137 votos em sua terra natal, Juazeiro, é quem assina a maioria das músicas dos Novos Baianos.É o ideólogo, o mentor e faz questão de falar através de frases soltas e cheias de significados secundários. Fala manso e devagar para que você entenda cada uma das palavras pronunciadas. O crítico Tarik de Souza diz que Galvão é a ideologia básica do conjunto, apesar de não participar musicalmente. Seu traço básico é a justaposição de idéias fragmentadas em flashes rápidos e irônicos, costurados pela pontuação rítmica das canções e uma indelével influência gráfica do concretismo. Sem dúvida, isso concorreu para despertar a admiração do ensaísta Augusto de Campos, que os apresentou desta forma no primeiro disco: “Moraes e Paulinho afiaram as vozes num duelo de gumes sonoros que não é mole. Cantam livre, muito livre, mas cantam solto, com graça e com raça as letras cheias de armadilhas que Galvão preparou”.
Os Novos Baianos continuarão dando à música popular brasileira outros frutos através de seus discos e mesmo de pessoas que já os integraram e que hoje produzem independentemente. Outros virão e certamente outros ainda deixarão o grupo, que continuará firme como diz a letra de “Ferro na Boneca”com seus versos visionários : “Não é uma estrada/ é uma viagem/ tão viva quanto a morte/ e mais “No céu azul/ azul fumaça/ uma nova raça / saindo dos prédios para as praças/ uma nova raça? ( Colégio de Aplicação).

RELIGIÃO - O CULTO DA MORTE EM AMOREIRAS



Publicado no jornal A Tarde em 27 de janeiro de 1990.
Texto : Reynivaldo Brito
Fotos: Louriel Barbosa


Uma pequena comunidade habita a localidade de Amoreiras, na ilha de Itaparica, na Bahia, e vive quase isolada da civilização zelando pelos espíritos dos velhos integrantes dos candomblés. É uma comunidade fechada, cujos membros evitam contato com estranhos e às vezes chegam a agredi-los quando são importunados com insistência.A maioria é de negros e há anos zelam pelos Eguns que são os receptáculos existenciais dos mortos, cujas identidades são conhecidas.
Atualmente a comunidade tem cerca de 300 pessoas e seu chefe é Manoel Antonio de Paula, um senhor de 108 anos de idade que ouve muito e fala muito pouco. É o mais velho do grupo e ostenta o título de Alagba e seu principal assistente chama-se Otun-Alagba , que é o seu sucessor em caso de morte. Portanto, mesmo em vida o Alagba já tem o seu substituto o que garante a continuidade da seita com todo o ordenamento que eles vêm conservando há centenas de anos.
Todos os membros da comunidade têm orgulho em pertence-la, mas esquivam-se a fornecer qualquer informação sobre os trabalhos ali realizados e o próprio viver do grupo. Basta dizer que ninguém consegue fotografá-los e para que as fotos que ilustram esta reportagem fossem feitas foi preciso um trabalho cuidadoso e persistente junto aos Ojês
Através de um profissional capacitado o fotógrafo Louriel Barbosa, filho de uma das mais tradicionais e respeitadas ialorixás da Bahia, Olga de Alaketo. Assim pela primeira vez são publicadas com exclusividade as fotos dos Babás que são os espíritos dos mortos sendo conduzidos pelos Ojés que os orientam e os repelem com pequenos bastões que trazem presos às mãos. O espetáculo é lúgubre pois, os Babás com suas vozes além-túmulos deixam os estranhos amedrontados.
Os pesquisadores revelam também que a sobrevivência desta comunidade está ligada a uma prática dos descendentes iorubas. Como a maioria das mulheres preocupa-se em dar luz a seus filhos e as condições das populações negras do Brasil tornam a gravidez quase sempre uma aventura que mistura alegria e sofrimento, com perigo iminente de perda da criança, muitas vezes elas procuram a proteção dos Ojês. A primeira resposta é a mulher prometer colocar a criança, se esta for sadia, ao serviço dos Eguns. Se a criança que nascer, graças aos Eguns, for um menino, recebe o nome de Muisan e terá desde a infância uma função específica na sociabilidade dos Eguns. Caso seja menina, recebe o nome de Ato.

FEMININOS DE FORA

Uma curiosidade desta seita é que os Eguns femininos, que devem existir, não se manifestam jamais. Não há almas femininas manifestadas nos Eguns de Amoreiras.
Quando assistimos o culto dos Eguns indagamos quem vestia os trajes de Egun e quem emprestava ao morto àquelas vozes além-túmulos? Eles respondem simplesmente que eram os Babás, E mais nada adiantaram.Porém, segundo pessoas ligadas à seita só podem vesti-los os homens que disponham de extenso saber fanático, ou seja , o que é transmitido de geração à geração no que diz respeito aos amuletos, feitiços, os trajes, os bastões da morte, etc. O detentor deste conjunto de objetos e sabedorias , em sua totalidade, compõe o Egun, que é o herdeiro , o proprietário do Kraal. Conhece os segredos da cura dos Eguns, as suas vontades e sabe interpretar sua dança.
Quase ninguém conhece os Eguns. O segredo é absoluto quando surge em aparições públicas. Só os iniciados e membros da seita têm condições de conhecer um.



A LENDA DOS EGUNS

Segundo contam os antigos iorubas , a morte e sua comitiva costumavam invadir a Cidade de Ifé. De quatro em quatro dias, desciam do céu e invadiam o Mercado de Ojaifé e matavam quantas pessoas podiam com grandes cajados. A maioria dos habitantes de Ifé foi em pouco tempo massacrada. Os sobreviventes voltaram-se então para os Orixás, mas eles responderam que nada podiam fazer contra a morte. Finalmente , um cidadão chamado Ameiyegun prometeu salva-los . Arranjou tecidos coloridos mandando confeccionar uma roupa com grandes mangas com que cobriam os braços e as mãos , também as pernas e os pés. Sacrificou um bode, um galo e queimou três canas para fabricar a vestimenta. Em seguida, chamou o povo gritando: “Venham ver o pé, o pé do segredo.”Dias depois quando a morte e sua comitiva voltaram ao mercado de Ojaifé foram repelidas por Ameiyegun e sua gente e nunca mais importunaram os habitantes de Ifé.
O candomblé dos Eguns da ilha de Itaparica não se compõe de homens e mulheres do clã dos Ameyegum ou dos clãs aliados. Informa o pesquisador Jean Ziegler, da Universidade de Genebra , que não existe nenhum indício nos arquivos de deportação e registros dos escravos que chegaram à Bahia ou mesmo na memória dos Ojês que permita afirmar que o clã de Paula faça parte da estrutura parental dos Ameyegum. A própria base cênica do candomblé de Egun é rica em subdivisões. Inúmeras vezes quando um doente, um enfermo, um desesperado apresenta-se ao feiticeiro é encaminhado aos Eguns.
Por pedido de um terceiro , o proprietário invoca o Egun e este cura, aconselha, ordena sacrifícios expiatórios ou declara não querer responder acerca do assunto. Em ambos os casos o proprietário do traje recebe um pagamento. Portanto, o pagamento é feito às obrigações e consultas da mesma forma que são pagos os batizados, missas , etc. Tudo dentro de um preço relativo de acordo com o desejo do indivíduo. Cada Egun mantém a hierarquia do terreiro que tem um domínio patriarcal forte que é mantido com muita força e imposição.
Notamos em Amoreiras que a comunicação com os antepassados, com os espíritos e a rígida salvaguarda de sua identidade,dos trabalhos e outros segredos da seita são guardados com preocupações obsedantes. Quando um estranho começa a indagar muito, os membros da comunidade ficam calados lançando olhares aterradores que amedrontam. Tudo é vivido e criado dentro de um clima de alta segurança e ao mesmo tempo de desconfiança em relação a qualquer pessoa que se acerque da comunidade.
No entanto, quando chegamos ao terreiro que eles chamam de Ilha de Agbala, que é composto de pequenas casas e da casa dos Eguns e nos identificamos como jornalistas o velho Antonio perguntou quanto pagaríamos para ver os Babas. Quando dissemos que não tínhamos dinheiro para dar a coisa ficou mais difícil ainda e todos os membros passaram de certa forma as nos hostilizar. Como isto notamos que dentro em breve esta comunidade estará, pelo menos parcialmente, descaracterizada, devido principalmente à invasão turística que está mutilando a vida das pequenas comunidades nas ilhas da Baía de Todos os Santos e no litoral norte da Bahia. Muitas dessas comunidades viviam há pouco tempo em semi-isolamento e agora estão sofrendo o choque da civilização , onde o dinheiro fala mais alto que as crenças e outros valores culturais e religiosos.
O próprio Jean Ziegler escreveu em 1977 que “Ora, em Itaparica, a angústia dos a não se arriscarem. Fazem as perguntas que milhares de outros antes deles já fizeram e cujas respostas já conhecem antecipadamente. Sua liberdade é de tal maneira mutilada que até mesmo a angústia imobiliza-se em palavras imutáveis, A conseqüência é a fossilização da memória coletiva,o nascimento de estruturas minerais que aprisionam e fragmentam o vivo conhecimento dos Eguns. Quanto mais rígidas se mostram as estruturas rituais, tanto menos se desenvolve um saber humano”. Aliado às palavras de Ziegler diria que além de ser um problema insolúvel a violação desta comunidade, alguns membros parecem compreende-la solicitando do estranho visitante alguns cruzeiros para deixar-se fotografar ou fazer qualquer trabalho. Como que querem tirar proveito “enquanto a fonte não seca”.

RESPEITO

Todas as pessoas que estudam o candomblé e são membros da seita têm extremo respeito pelos Eguns de Itaparica e muitos ficaram horrorizados quando procurados para falar sobre o assunto e, principalmente, quando eram informados que dispúnhamos de algumas fotografias dos Eguns e seus Babas. O saber dos Eguns e é um saber revelado, é um saber empírico e completamente guardado dentro de uma visão de medo. Um medo que aterroriza pessoas ligadas ao candomblé. Basta dizer que presenciei o autor dessas fotografias, que é ligado ao candomblé de Olga de Alaketo, sair correndo quando dois Babas resolveram voltar desobedecendo ao Ojê . Imediatamente, o fotógrafo partiu em disparada e tremia de medo. Acredito que aí está um dos sustentáculos deste segredo que vem guardado há centenas de anos e que se espalhou por todos os terreiros do Brasil e da África. Isto porque nem mesmo auxiliares dos Ojês conhecem os mistérios dos Eguns. Eles têm como função essencial manter a ordem da multidão, nas festas e zelar por meio do manejo do Isa ( bastão de cipó) para que seja respeitada a separação dos dois espaços, o dos vivos e dos Eguns. São os Amuisan , que protegem os vivos de todo o contato com os Eguns. Assim, outras figuras integram esta estranha seita que habita um morro isolado na localidade de Amoreiras cuidando da morte, que para eles é a continuação da vida, isto é, o começo de uma nova vida.

RELIGIÃO - CRIANÇAS APRENDEM NA ESCOLA A PRESERVAR A CULTURA NEGRA

Jornal A Tarde 19 de janeiro de 1980.
Texto Reynivaldo Brito

Cansadas e inconformadas com a distorção a que são submetidos seus filhos nas escolas oficiais, mais de 100 famílias ligadas a um dos mais tradicionais terreiros de Salvador, que funciona no bairro de São Gonçalo do Retiro, resolveram criar uma mini -comunidade que integrasse suas crianças e moradores do bairro.Entraram em contato com órgãos federais, estaduais e municipais ligados à educação e fundaram uma escola onde a liberdade é quase total e as professoras dão ênfase às manifestações da cultura negra. Assim elas são orientadas pelos membros da Sociedade de Estudos de Cultura Negra do Brasil, que reúne antropólogos, lingüísticas ,sociólogos e historiadores.
Na foto Ó mó iyi / oni ile ekó mi / oni odara pupo ( você conhece esta casa? Ela é minha escola. Ela é muito boa) - a saudação em yorubá com que as crianças recebem os visitantes.

Pretendem , nesta experiência inédita no Brasil, evitar que as crianças do terreiro e do bairro sejam vítimas da perda de suas raízes culturais, colocando-as num processo contínuo de conscientização dos valores cultivados por seus antepassados. Ao mesmo tempo elas frequentam escolas oficiais para conseguirem os diplomas necessários à sua formação profissional, porque na escola da comunidade não existe uma avaliação formal com notas e conceitos. O que buscam os organizadores e idealizadores da comunidade é transmitir-lhes os traços mais significativos da cultura negra para que o processo cultural tenha uma continuidade garantida sem a possibilidade das graves distorções a que está submetida em diversos segmentos da sociedade.

                                                               SAUDAÇÃO

Ó MÓ YIY / ONI ILE EKÓ MI / ONI ODARA PUPU, esta saudação em yorubá significa: Você conhece esta casa? Ela é minha escola. Ela é muito boa”, e foi pronunciada num coro uníssono quando o repórter chegou para documentar o trabalho da comunidade. Elas estavam sentadas ouvindo as explicações da professora Maria das Graças Santana sobre algumas cantigas em yorubá que foram compostas especialmente para elas pelo Assobá e Alipini do terreiro de Opô Afonjá , mestre Didi. Ele também é encarregado de transmitir a língua yorubá às crianças e é um batalhador pelo respeito à cultura negra.
Informa a coordenadora da Secneb, Juana Elbein dos Santos ,argentina, doutora em etnologia e mulher de Deoscóredes dos Santos, o mestre Didi , que esta comunidade faz parte de uma experiência nova em todo o mundo, que fugindo aos padrões tradicionais das escolas de primeiro grau, consiste em estabelecer uma comunidade infantil no seio de uma comunidade já existente, com sua própria história e formas particulares de existência. Este é o primeiro projeto e vem atender também à necessidade de corrigir os altos índices de evasão escolar e de repetência a que estavam submetidas estas crianças devido à dificuldade em entenderem o código das escolas e das escolas entenderem os seus códigos. Seria uma espécie de falta de comunicação – revela Juana Elbein – que só é quebrada à medida que a criança cede aos conceitos emitidos pelos professores. Aqui em nossa comunidade, ao contrário, são usados os códigos da infância para a transmissão de conhecimentos”
Como toda obra cultural, a comunidade enfrenta problemas financeiros e especialmente a dificuldade em encontrar pessoal especializado para exercer as várias funções. Mas, a sociedade civil Axé Opô Afonjá cedeu terreno e os órgãos oficiais estão dando alguma ajuda.

                                                              RELIGIOSIDADE

Embora não sejam todas crianças ligadas religiosamente ao terreiro existe na comunidade uma preocupação em transmitir valores religiosos ligados ao candomblé – admite a etnóloga – serve como elementos de coesão não somente da comunidade do terreiro propriamente dito, como também da comunidade das crianças do Obá Biyi.
Ela considera que o equilíbrio domina a consecução da idéia em decorrência da existência de um grupo heterogêneo responsável pelo projeto. Deoscóredes defenderá a comunidade como Assobá do culto, uma espécie de guardião de honra do terreiro, por descender diretamente de sua criadora. Ao seu lado estão várias outras pessoas ligadas a especialidades como a antropologia, lingüística e etnologia. Enfrentam inclusive algumas críticas feitas ao projeto sobre a possível “Interferência”do grupo de pesquisadores em sua comunidade que tem seus valores próprios. Os críticos indagam “com que direito”agem essas pessoas envolvidas no projeto. Consideram a criação de um possível quilombo, cuja proliferação poderia levar ao “fechamento”da comunidade negra, voltando-se assim a uma situação ultrapassada.

                                                             APRENDIZADO

O projeto vem funcionando há mais de dois anos, e somente agora, depois do treinamento dos professores e auxiliares é que está sendo executado passando à realidade. O ensino é aberto, desenvolvendo a potencialidade nas crianças por áreas de interesse.
O material didático será desenvolvido pelos próprios alunos e em lugar da cartilha a criança conta a estória e depois escreve sua própria estória , começando a ser alfabetizada com as palavras que utiliza em seu vocabulário.
Informa a etnóloga que diversos e variados setores integram a atividade didática da comunidade. Além da parte de jogos,m desenho e linguagem, existe um setor de literatura oral, no qual as crianças contam e ouvem mitos e lendas ligados à sua raça.
Já no setor de arte, aprendem a música típica, integrada com dramatização e canto até em dialetos africanos. No setor ocupacional, as crianças da comunidade Oba Biyi aprendem a costurar com membros do terreiro, que são alfaiates e com costureiras que empregam em seus trabalhos de bordados, couro, búzios, ráfia e contas. Aí entram em contato com as cores e seus significados especiais.
As crianças também aprendem técnicas agrícolas e em convênio com a Emater-Ba será desenvolvido um projeto hortifrutigranjeiro, no qual serão produzidos os próprios alimentos da comunidade. Ao mesmo tempo receberão uma orientação profissional que lhes permita a mobilidade social. Elas têm acompanhamento nutricional criterioso, assistência médica e no próprio prédio da escola funciona, anexa, uma creche com capacidade de receber oito crianças recém-nascidas, 15 com idade de até dois anos e outras em idade pré-escola.

                                                                     OBÁ BIYI

O nome Oba Biyi foi dado em homenagem à primeira mãe-de-santo do terreiro que chamava-se Mãe Aninha. A atual é Mãe Estela que considera o projeto “muito importante para elas quando estiverem no curso secundário ou superior, saibam defender a seita, que é uma religião como outra qualquer. A seita já é conhecida e respeitada por pessoas de influência”
Para Jorge Amado, ligado ao candomblé , a idéia é excelente e vem demonstrar a importância da cultura negra na cultura brasileira. Essa comunidade dentro do Axê Opô Afonjá , de Mãe Aninha, Mãe Senhora, Mãe Ondina e Mãe Estela, adquire uma importância excepcional porque se situa dentro de uma casa de santo que conserva as mais puras tradições africanas."
Na foto a escola que funciona numa ampla casa do terreiro Axé Opô Afonjá, em São Gonçalo do Retiro.
Também o artista plástico argentino –baiano Carybé , que faz parte da comunidade, considera a idéia fabulosa, “uma coisa de bases sólidas e sérias quando muitos candomblés estão se transformando em clubes carnavalescos. O terreiro é sério e vai para a frente, sem confundir religião com folclore. É uma casa que nunca quis conquistar renome nem adeptos famosos. É aberta e fechada: aberta a quem quiser vir e fechada para este tipo de folclore. "

RELIGIÃO - ÁRVORES SAGRADAS RESISTEM À DESTRUIÇÃO

A Tarde , quarta-feira , 31 de janeiro de 1979

Texto de Reynivaldo Brito
Fotos Louriel Barbosa

Arredios ao comportamento místico do povo baiano, engenheiros e arquitetos responsáveis pela abertura de avenidas nos vales de Salvador estão destruindo um patrimônio de grande significado para os descendentes dos africanos, e mesmo para todas àquelas pessoas ligadas ao candomblé. São as árvores sagradas que vieram da África e que representam verdadeiros templos, onde são feitas obrigações da seita. Elas somavam quase duas centenas e, hoje, poucas conseguiram sobreviver.Como afirma o ogã do candomblé do Bogum, Jehová de Carvalho , “assistimos , impotentes e indefesos, a esta profanação. São os babalaôs , yalorixás, obomins, okedes, ogãs e obas que mais sofrem com a dilapidação desses elementos importantes e integrados a nosso culto. Cada árvore sagrada desta tem uma história e muitas chegaram até à Bahia trazidas com muita fé e assim cresceram, e debaixo de suas copas foram feitas e depositadas, no decorrer dos anos, preces e outras formas de manifestação do candomblé.”
Na foto ao lado  fita branca amarrada em seu tronco,a árvore do Terreiro de Menininha do Gantois
Somente na Avenida Mário Leal Ferreira, mais conhecida como a Avenida Bonocô em homenagem a um candomblé que funcionava nas imediações, foram derrubadas mais de dez árvores sagradas. Existiam, ali, dez terreiros de candomblés das nações Ketu e Angola, que tiveram que sair devido à presença dos tratores e caçambas na época da construção da referida avenida. Ali viviam muitas árvores de looku, as conhecidas gameleiras nativas que dominavam a paisagem dos morros e vales, hoje transformados em cortes que mais parecem chagas feitas na terra pelas navalhas dos tratores . Dessas restaram, apenas, a do condomblé da yalorixá Emília, na Baixa da Torre, à beira do Bonocô , e a do babalorixá Walter, que cumpria suas obrigações para Oxalufã.

                                                           ACIDENTES

Contam os freqüentadores do terreiros baianos que muitos acidentes ocorreram e continuarão a ocorrer todas às vezes que essas árvores forem destruídas.Vários operários da prefeitura de Salvador chegaram a recusar-se a derruba-las, e os jovens engenheiros, alheios à mística de seus subordinados , quase sempre os puniam. Mas, eles mantinham o firme propósito e não cortavam as árvores, porque acreditavam que estariam destruindo um bem sagrado. Porém, outros, desconhecendo talvez o valor espiritual daquelas árvores, apressaram-se em executar as ordens dos engenheiros e alguns sofreram acidentes.


Conta a yalorixá Yeneci, do candomblé de Angola, localizado no Alto da Torre, no bairro de Brotas, que conheceu três deles que foram castigados quando deram início ao corte da árvore de Looku , que existia na ladeira da rua Machado de Assis, a poucos metros da Bonocô. Um deles morreu devido a corte da perna provocado por uma serra elétrica, e dois sofreram ferimentos sem muita gravidade.

Na foto a árvore sagrada no Terreiro da Casa Branca,na Vasco da Gama. Há diversas árvores sagradas, segundo o ritual do candomblé.

  BOGUM

A árvore de Azanná Odô, com mais de duzentos anos , trazida da África e dedicada ao culto do orixá da mesma denominação nos terrenos onde está localizado o único terreiro gêge do Brasil, caiu porque pessoas alheias ao culto colocaram veneno em suas raízes. A velha árvore tombou durante uma ventania, enfraquecida que estava pela agressão em sua base de sustentação.Gamo Lokossu, a atual yalorixá da casa, teve uma crise nervosa quando tomou conhecimento do fato e algumas filhas-de-santo rumaram para o local, onde colheram galhos da árvore sagrada, os quais guardam com muito respeito. Elas entoaram o cântico de Azanná Odô, no momento em que apanhavam os galhos.Foi um momento de muita tristeza.
Informa o ogã-rontó Amâncio que existem algumas árvores ao longo das avenidas de vale , principalmente ao sopé das encostas, que possuem alguma semelhança com a Azanná Odô , mas estas não têm lenho. Quando cortadas, exibem uma lã parecida com as da barriguda. Também Não têm espinhos no tronco, ao contrário da verdadeira árvore sagrada que tombou.
Lebram os mais velhos integrantes do candomblé do Bogum que os antigos gêges , vindo do atual Dahomé, residiam nos baixios, em palhoças afastadas da casa principal do terreiro.Era uma comunidade isolada, que ocupava o atual bairro do Engenho Velho da Federação. Cada orixá tinha sua árvore, mas a de Azanná Odô era a mais alta e ali foram feitas centenas de obrigações.
Informa o ogã Jehová de Carvalho que, no sincretismo religioso, esta árvore representava o componente branco do trio dos reis magos que foram à manjedoura de Belém levar suas oferendas ao Cristo recém nascido. Por isto, todos os anos, no dia 6 de janeiro – Dia de reis – eram feitas muitas obrigações.Mas, para surpresa de todos, a velha árvore poderá sobreviver porque do seu tronco caído estão surgindo alguns brotos. Os mesmo aconteceu com a árvore sagrada do terreiro de Mãe Menininha do Gantois, onde do centro de seu tronco, também destruído, nasceu outra árvore que tem uma estranha formação, lembrado uma criança nascendo e, do outro lado, a cara de um tigre.
Na foto ao lado fita branca amarrada em seu tronco,a árvore do Terreiro de Menininha do Gantois

Em todos os candomblés de Salvador existem árvore sagradas, que representam verdadeiros templos. Quando esteve na África , o professor Estácio de Lima, antropólogo baiano, constatou a relação entre essas árvores existentes na Bahia com as do Continente Negro, onde algumas são utilizadas até como urnas mortuárias em determinadas tribos.